Abril 30, 2026
O Ricardo Martins Pereira já viveu várias vidas dentro da mesma vida profissional: jornalista, criador de projetos editoriais, empresário, comunicador e uma das vozes reconhecidas em Portugal.
Nesta conversa do VOA Talks, mais do que revisitar o percurso que passou pela rádio, imprensa, O Arrumadinho, New in Town e MAG, quisemos compreender a pessoa por trás da carreira: o que o move, o que aprendeu e como olha para a liberdade, a liderança, o trabalho e os momentos em que foi preciso começar de novo.
Quando lhe perguntamos como se define hoje, o Ricardo não escolhe uma profissão. Diz que se sente uma pessoa livre. E essa liberdade, como explica, não apareceu por acaso.
Há uma ideia que atravessa a conversa com o Ricardo Martins Pereira: a liberdade é uma construção.
Muitas vezes olhamos para alguém que criou projetos, ganhou autonomia e conquistou espaço público como se tudo tivesse acontecido de forma natural. Vemos o resultado, mas raramente vemos o caminho. E o caminho do Ricardo começou cedo, com 19 anos, numa rádio local em Setúbal, onde trabalhou durante dois anos sem receber.
Ia à faculdade, atravessava cidades, preparava programas, fazia rádio e repetia tudo no dia seguinte. Não havia glamour. Havia vontade. Não havia dinheiro. Havia aprendizagem.
Talvez seja por isso que, quando fala de liberdade, o Ricardo não fala de leveza imediata. Fala de estrutura. De trabalho invisível. De escolhas repetidas. De disciplina.
Porque a liberdade, quando é real, raramente nasce do improviso. Nasce da capacidade de construir uma base que nos permite escolher.
O talento também precisa de músculo
Vivemos num tempo em que se fala muito de talento, propósito e reinvenção. Mas fala-se menos daquilo que sustenta qualquer percurso consistente: repetição, compromisso, resiliência e capacidade de continuar quando ninguém está a ver.
O Ricardo entrou cedo no mercado porque percebeu que esperar podia significar ficar para trás. Havia muitos estudantes de comunicação social e poucas oportunidades reais. Em vez de aguardar pelo fim do curso, começou antes.
Essa decisão diz muito sobre a forma como olha para o trabalho. O talento pode abrir portas, mas é o compromisso que nos mantém em movimento.
E talvez esta seja uma das ideias mais atuais da conversa: num mundo onde tudo parece rápido, visível e imediato, continuam a ser as bases menos fotogénicas que fazem diferença. Disciplina, critério e vontade de aprender continuam a ser vantagem competitiva.
Saber fazer de raiz continua a importar
O Ricardo pertence a uma geração que viveu o mundo analógico e atravessou toda a revolução digital.
Começou a trabalhar numa altura em que não havia redes sociais, marketing digital ou internet nas redações como hoje a conhecemos. A informação procurava-se em almanaques, faxes, arquivos físicos e contactos diretos. Tudo era mais lento, mais manual e mais exigente.
Esse contacto com o início das coisas deu-lhe uma base que hoje considera essencial: saber fazer de raiz.
Porque há uma diferença entre usar ferramentas e compreender verdadeiramente uma linguagem. As plataformas mudam, os formatos mudam, os algoritmos mudam. Mas há competências que continuam a atravessar qualquer tempo: pensar bem, estruturar uma ideia, perceber pessoas e comunicar com clareza. A tecnologia acelera. Mas não substitui critério.
Liderar é criar ambiente
Outro ponto forte desta conversa é a forma como o Ricardo olha para a liderança.
Ao longo da carreira, conheceu vários tipos de chefia. Algumas ensinaram-lhe o que queria repetir. Outras mostraram-lhe exatamente o que não queria ser. Quando começou a criar os seus próprios projetos, uma das intenções era simples: construir lugares onde as pessoas gostassem de trabalhar.
Lugares com exigência, mas também com respeito. Com espaço para discordar. Com abertura para que pessoas mais novas trouxessem o seu olhar. Com liderança, mas sem confundir autoridade com grito, controlo ou humilhação.
Há aqui uma ideia muito importante: liderar não é apenas tomar decisões. É definir o tom invisível de uma equipa.
É criar um ambiente onde as pessoas possam crescer, contribuir e sentir que fazem parte do que está a ser construído. Talvez seja por isso que, nos momentos difíceis, a resposta da equipa também tenha sido diferente.
A crise mostra o que já existia
Em 2020, depois de comprar a totalidade da sua empresa, o Ricardo entrou num dos períodos mais difíceis da sua vida profissional. Tinha uma equipa para pagar, pouca margem financeira e, pouco depois, uma pandemia a mudar todas as regras do jogo.
Houve um momento em que teve de dizer à equipa que não conseguiria pagar os salários no dia previsto. A resposta que recebeu ficou-lhe marcada: as pessoas disseram que estavam com ele.
Esse episódio diz muito sobre liderança, mas diz ainda mais sobre confiança. As relações não se improvisam no momento da crise. Constroem-se antes, nas decisões do dia a dia, na forma como se cuida das pessoas, na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz.
A crise não cria a verdade. A crise revela-a. E, neste caso, revelou uma cultura de reciprocidade.
Reinventar-se não é apagar o caminho
A palavra reinvenção aparece muitas vezes associada à ideia de começar do zero. Mas a história do Ricardo mostra outra coisa. Reinventar-se não é apagar o que ficou para trás. É reorganizar tudo o que se aprendeu e dar-lhe uma nova forma.
Foi isso que aconteceu quando decidiu criar os seus próprios projetos. Foi isso que aconteceu quando uma ideia rejeitada dentro de uma estrutura se transformou no impulso para avançar por conta própria. Foi isso que aconteceu quando atravessou instabilidade e teve de continuar.
A reinvenção, aqui, não aparece como fuga. Aparece como coerência. Como a capacidade de perceber quando já não é possível ignorar aquilo que se quer construir.
A felicidade também pode ser um critério sério
Quando lhe perguntamos o que o guia nas mudanças, o Ricardo responde: a felicidade.
Mas não fala de uma felicidade fácil, confortável ou imediata. Fala de uma felicidade ligada à coerência. À sensação de estar a construir uma vida onde existe espaço para decidir, criar, ajustar e continuar.
Seguir a felicidade, neste caso, não significou escolher sempre o caminho mais simples. Muitas vezes significou o contrário: arriscar, sair de lugares estáveis, assumir responsabilidades, viver incerteza e continuar mesmo sem garantias. Talvez por isso a liberdade de que fala no início da conversa tenha tanta densidade.
A liberdade não é ausência de responsabilidade. É a possibilidade de escolher as responsabilidades que fazem sentido para nós.
Na VOA, acreditamos que as escolhas diárias importam. A água que bebemos, a forma como cuidamos do corpo, o modo como gerimos a energia, a atenção que damos ao nosso ritmo e a consciência com que habitamos a vida.
A história do Ricardo lembra-nos precisamente isso: o caminho constrói-se todos os dias, nas decisões visíveis e nas invisíveis. E a liberdade, afinal, não chega de repente. Treina-se. Escolhe-se. Constrói-se. Todos os dias.
Vê ou ouve o episódio completo do VOA Talks com o Ricardo Martins Pereira no YouTube e no Spotify.
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